Cidades há, outrora ricas e florescentes, que jazem esquecidas, abandonadas, quais pobres velhas trêmulas a dormitarem a beira das estradas. Haja vista Parnaíba, nos seus primeiros tempos rival de S. Paulo de Piratininga, berço de valentes bandeiras, denodados sertanistas, descobridores de minas e fundadores de povoados nos sertões bravios, cidade de um passado tão glorioso, jaz esquecida, e, quando atravessamos suas ruas, parece nos atravessar uma cidade morta, casas fechadas, raro transeunte pelas suas ruas desertas, em tudo uma grande tristeza. Do seu passado glorioso só ali está para atesta-lo a sua grande e bela igreja matriz, envolta no mais completo silêncio.
Porto Feliz também, se não tanto assim, se em suas ruas se nota algum movimento, se se ouve o barulho de suas fábricas e o apito do trem em sua distante estação, é uma esquecida. A estrada de ferro que a liga à Capital é tão longa, tão fatigante, e assim os que daqui vão para lá preferem fazer a sua viagem pela estrada de rodagem .
Porto Feliz é também uma cidade esquecida e parece envolta nesse véu de tristeza, que envolve as cidades e povoações abandonadas. E ali foi o Porto de Araritaguaba, o decantado porto das monções, tão celebrado em nossas crônicas históricas. E tempo houve em que Araritaguaba, já elevada à vila com o nome de Porto Feliz, se distinguiu entre outras vilas da província pela importância do seu comércio, da sua lavoura e população. Não deixará de ter interesse o se conhecer o estado de progresso de Porto Feliz, em 1835, e assim vamos transcrever o que a respeito nos conta o Marechal Daniel Pedro Muller em seu valioso trabalho " Ensaio Estatístico da Província de São Paulo", trabalho esse ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e de 10 de março de 1837, e cujos dados estatísticos se referem ao ano de 1835: "Porto Feliz - do termo de Vila, esta povoação se denominava Araritaguaba. Foi ereta em vila em 1797. Fica situada à margem do Rio Tietê, sendo o ponto de embarque para a navegação interior para Cuiabá. Compreende o seu distrito a freguesia de Pirapora (Tietê) a 3 léguas de distancia, à margem daquele Rio. Contém no seu distrito 11.293 habitantes. Tem na vila edifícios públicos, a Matriz (orago de Nossa Senhora Mãe dos Homens) e Casa da Câmara. Confina com os distritos das vilas de Itu, Sorocaba, Itapetininga e Capivari. N.B.: também em partes por nesgas de sertão confina com o distrito da vila de Constituição (Piracicaba) .
Distancias em léguas das vilas limitrofes: a Itu 4 1/2 léguas, a Sorocaba 6, a Itapetininga 12, a Capivari 4 l/2.
Distancia a que confina seus limites nas direções nas estradas partindo da Vila: na de Itu 2 1 /2 no Caiacatinga. Na de Sorocaba 3 1/2 no ribeirão das Areis. Na de Itapetininga 5 no rio Sorocaba, ponte neste rio. Na de Capivari no rio Capivari. N.B.: na freguesia de Pirapora tem ponte no rio Tietê.
Divisão dos Distritos de Paz: todo o município se divide em 1.° distrito do Sul, 15 quarteirões; 2.° distrito do Norte, 4; 3º distrito de Pirapora, 5.Administração da Justiça: Juiz Municipal 1, Promotor 1, Juízes de Paz 3, Juizes de Órfãos 1, Juizes de Fato(que podem ser eleitos)57, Meirinho 1, Solicitador 1, Letrado 1, Escrivães2.
Profissões: residem neste município 5 sacerdotes (clero secular), 1 coletor de rendas, 1 cirurgião, 45 comerciantes, 1 marceneiro, 33 carpinteiros, 10 ferreiros, 1 ourives, 4 oleiros, 4 tecelões, 3 suradores, 5 alfaiates, 7 sapateiros, 1 latoeiro e 1 viveiro, e 214 pessoas, que sabendo ler e escrever têm decente subsistência.
Produção Agrícola: café 900 arrobas; açúcar 73.113 arrobas; aguardente 560 canadas; arroz 468 alqueires; farinha de mandioca 40 alqueires; feijão 1.027 alqueires; milho 20.180 alqueires; azeite de amendoim 24 medidas; fumo 20 arrobas; algodão em rama 20 arrobas; porcos 18.
Valor da produção: 85.890.100. Conta com 76 engenhos de açúcar. No distrito tem uma sesmaria só em parte cultivada e outra inculta, e ainda há muitos terrenos devolutos para a parte do sertão nas margens do Tietê. A principal cultura deste distrito é a da cana de--açúcar e mantimentos.
Preço médio dos principais gêneros: fumo - 3$ a arroba; milho 700 reis o alqueire; feijão 1.500 o alqueire; farinha de milho 1.200 o alqueire; aguardente - 40$ a pipa; arroz l .800 o alqueire; açúcar branco 2.000 a arroba; café 1 .600 a arroba; toucinho 3.88 a arroba; algodão 1 .800 a arroba; azeite de amendoim 420 réis a medida; cavalo - 25$ ; besta - 50$; boi - 15$; porco 10$; carneiro - 2$.
Fogos e População: conta este distrito com 1.436 fogos. Sua população é, de 11.293, assim dividida: livres (7.122) , sendo 3.634 homens e 3.488 mulheres; cativos ( 4.171 ) , sendo 2.656 homens e 1.515 mullieres. Quanto à sua condição, essa população se divide em 3.634 casados, 239 viúvos e 6.423 solteiros com menos de 30 anos, 997 maiores de 30 anos.
Nascimentos: durante o ano de 1835 foram verificados neste distrito 388 nascimentos, sendo 208 de livres e 180 de cativos.
Óbitos: foram verificados 213 óbitos, sendo 99 de livres e 111 de cativos.
Casamentos: realizaram se durante o ano de 1835, 108 casamentos, sendo
63 de livres e 39 de cativos.
Instrução pública: conta o distrito com uma escola de primeiras letras, com 72 alunos, e 2 particulares com 31 alunos.
População escolar: 103.
Guarda Nacional: 2 Companhias de Infantaria com 185 praças, 2 Esquadrões de Cavalaria com 87 praças.
Divisão Eclesiástica: cabeça de comarca eclesiástica com Vigário da Vara e Pároco".
Por esse tempo, 1835, quanto à população, Porto Feliz ocupava o 6º lugar, estando em seguida São Paulo, Curitiba, Taubaté, Bragança e Itapetininga. Itu lhe era inferior, pois contava com 11.146 Habitantes. Quanto ao número de fogos ocupava o 7º lugar; quanto à produção agrícola o 19º e o 6º quanto ao número de engenhos. Devemos notar que, por esse tempo, grande parte do Paraná fazia parte da Província de São Paulo e que, nesse cômputo estatístico entram Curitiba, Castro, Antonina, Paranaguá e outros. A freguesia de Pirapora, que aqui aparece, é a atual cidade de Tietê. Por estes dados estatísticos se vê que a cidade de Porto Feliz, hoje como que esquecida, foi uma das pioneiras da grandeza de São Paulo.
por Francisco Nardy Filho - O Estado de São Paul, 15 de setembro de 1945, pág. 7