Araritaguaba e Sua Milícia

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Em 1728, sendo a povoação de Araritaguaba elevada à categoria de Freguesia, foram ali criadas duas Companhias de Ordenanças. As Ordenanças eram corpos organizados de soldados a pé e a cavalo, mais ou menos idênticos às antigas guardas nacionais. Eram corpos militarizados, com oficiais regulares hierarquizados, porém não aquartelados, residindo os soldados em suas casas e só comparecendo aos corpos quando chamados. E, como tinham a seu cargo a vigilância e policiamento das povoações, serviam por turnos, e assim se encontravam à disposição dos Capitães Mores ou de seus imediatos. Não tinham tais companhias efetivo certo e determinado, variando este de 30 a 50 homens, havendo até, como acontecia com a guarda nacional, companhias só compostas de oficiais sem efetivo. Criadas em Araritaguaba essas duas companhias, foram nomeados para seus comandantes e oficiais: Capitães José Cardoso Pimentel e Antonio Cardoso Pizarro; Tenentes Sebastião Bicudo e Francisco Soares de Aguiar;

lferes Antonio Rodrigues da Cunha e Francisco Xavier Soares. Esse José Cardoso Pimentel, nomeado comandante de uma das companhias, era filho mais moço de Antonio Cardoso Pimentel, um dos fundadores de Araritaguaba, e de sua segunda esposa, dona Maria Nobre. Em 1791, o capitão general Governador, Bernardo José de Lorena, considerando que a população de Araritaguaba aumentara bastante, criou ali mais duas Companhias de Ordenanças. Em 1797, ao ser a freguesia de Araritaguaba elevada a categoria de vila, com a denominação de Porto Feliz, contava seis Companhias de Ordenanças, com a seguinte oficialidade: Capitães Manuel José Vaz Botelho, Francisco Correa Moraes Leite, José Luiz Coelho, Gonçalo de Arruda Leite, José Custódio de Oliveira e João Correa de Moraes Leite; Ajudante - Salvador Martins Bonilha; Tenentes Joaquim Pinheiro de Almeida, José Mendes Ferraz, Joaquim de Araújo, Bento Dias Ferraz e Antonio Fernandes de Camargo; Alferes Antonio da Silva Leite, Salvador Correa de Moraes, Antonio Correa de Moraes, Antonio de Arruda e Sá e Antonio Ferreira Pinto. Contando por esse tempo a nova vila com mais de 570 moradores, foram criados os postos de capitão mor e sargento-mor, recaindo a escolha para esses novos cargos nas pessoas de Francisco Correa de Moraes Leite, que já exercia o posto de comandante de uma Companhia de Ordenanças, para capitão mor, e o de Antonio José de Almeida, para o de sargento mor. O sargento mor Antonio José de Almeida era natural de Araritaguaba e filho do capitão André Dias de Almeida, o explorador dos rios Ivaí e Iguatemi, destruidor de dois grandes quilombos de negros fugidos à margem do rio Tietê, e intrépido e valoroso sertanista. Foi também o sargento mor Antonio José de Almeida um sertanista audaz e valente. Nos primeiros anos de sua mocidade teve vontade de seguir a vida eclesiástica, chegando a habilitar se do gênese. Depois, vendo que, na verdade, outra era a sua vocação, contraiu matrimônio, em 1717, em Araritaguaba, com sua prima Theodora Leite Martins, filha do negociante português Francisco Antonio Martins, ali estabelecido. Fez o sargento mor diversas viagens de S. Paulo a Cuiabá, e de Cuiabá a Bahia, passando por Goiás.

Em 1809 passou a residir em Cuiabá. Em uma dessas suas viagens à Bahia, no correr do ano de 1817, veio a falecer em pleno sertão, vítima de uma febre maligna. Sertanista audaz e empreendedor, possuindo para o seu tempo não pouca cultura intelectual, gozou de real prestígio tanto em sua terra natal como fora. Deixou numerosa e ilustre descendência. Os soldados das Ordenanças não percebiam soldo algum, pelo que todos se esquivaram de prestar serviço. Por esse motivo, a Câmara de Porto Feliz, em 1821, solicita e obtém que fosse ali criada uma Força de Ordenanças Permanente, a fim de promover o sossego e segurança pública, a qual seria paga por donativos voluntários dos moradores. 

Francisco Nardy Filho - O Estado de São Paulo, 30 de outubro de 1938, pág. 9

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