Porto Feliz, 05 de setembro de 2010  
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Às Margens do Tietê, Revivendo a Saga do

Às Margens do Tietê, Revivendo a Saga dos Bandeirantes

 

Há muito tempo,  existiu uma  raça de  homens  como nunca mais se viu... Heróis, bandidos, santos e demônios que flutuavam como pássaros pelas águas destes rios. Navegavam ao sabor dos ventos, que ao soprar em sinal de uma boa viagem, os batizou Monçoeiros.

 

E deles quantas histórias sem fim continuam a rolar como seixos no fundo das águas. Foram felizes às vezes, como todo homem um dia merece ser. Celebraram as vitórias, lamentaram as perdas. Brincaram com o tempo, riram dos perigos, mas aprenderam a agradecer cada novo dia que viam amanhecer. Foram abençoados  pela mágica união que surgia entre os homens que dividiam o sofrimento, a dor, o medo. Uma união, uma garra que os fez descobrir o berço de nossa existência. Essa terra que alguém um dia chamou Brasil.

 

Viagens difíceis, rios com inúmeras corredeiras, febres, insetos venenosos, piranhas e, principalmente, ataques de índios. Canoas construídas à maneira indígena, cavadas em um só tronco. As maiores chegavam a transportar até 300 arrobas de carga, e com o tempo receberam toldos para evitar que as provisões se estragassem. Nelas, o piloto, o proeiro e  cinco ou seis remadores que remavam em pé como os índios. Com a carga no centro da canoa, os tripulantes na proa e os passageiros na popa, navegavam entre 8 horas da manhã e 5 da tarde, quando embicavam as canoas nos barrancos dos rios, armando acampamentos e marcando o nascimento de novos povoados. Daí, em nome da eterna busca de nossas raízes, ousamos navegar... navegar... e redescobrir a magia a saga de suas viagens.

 por Emílio Fontana Filho

 

 

 

Partindo de São Paulo

Os paulistas não teriam podido atacar as missões por anos seguidos se não contassem com o apoio, ostensivo ou velado, das autoridades coloniais. Embora não se saiba ao certo quais as expedições promovidas pela Coroa e quais as de iniciativa particular, sendo igualmente imprecisa a designação de entradas e bandeiras, o traço comum a todas elas foi a presença, direta ou indireta, do poder público. Muitas vezes era este que financiava a expedição. Outras, limitava-se a fechar os olhos para a escravização dos índios (ilegal desde 1595), aceitando o pretexto da “guerra justa”.

 

Interesse público e interesse particular interligavam-se desde as expedições “defensivas” do século XVI, dirigidas contra as tribos do vale do Paraíba, do Anhembi (Tietê), do Mogi-Guaçu e de outros rios paulistas Chefiadas pelos capitães-mores e autoridades, esses ataques preservaram o núcleo de povoamento no planalto - e revelaram as potencialidades econômicas da “caça ao índio” (preação). Durante o governo de Jerônimo Leitão, que foi capitão-mor de São Paulo de 1579 a 1592, os oficiais da Câmara resolveram, “em nome do povo”, que a guerra fosse levada aos carijós, tupinaés e tupiniquins. A frente de forças compostas de mamelucos, Jerônimo Leitão assolou durante seis anos as aldeias do Anhembi, escravizando muitos índios.

 

Em busca do ouro

O bandeirismo ofensivo, de apresamento, coincidiu com a chegada a São Paulo, em 1599, de D. Francisco de Sousa, sétimo governador-geral do Brasil (1591-1602). Certo da existência de metais preciosos no interior, D. Francisco organizou várias entradas, que partiram de diversos pontos da Colônia. Além disso, atribuiu estrutura oficial às expedições, que receberam divisões militares, ouvidores do campo, escrivães e capelães, além de roteiros pré-determinados.

 

Patrocinadas por D. Francisco foram as bandeiras de André de Leão (1601) e Nicolau Barreto (1602). A primeira buscava minas de prata e cruzou o sertão durante nove meses, seguindo pelos vales dos rios Tietê e Paraíba, ultrapassando a Mantiqueira e chegando às nascentes do rio São Francisco. A segunda estendeu-se por dois anos. Teria chegado à região do Guairá, regressando com um número considerável de índios, que algumas fontes estimam em 3.000.


A partir de então coexistiram as expedições de prospecção (busca de metais preciosos) e de apresamento (“caça ao índio”), e definiram-se as linhas gerais da expansão bandeirante. Levando suas bandeiras para o sul, os paulistas atingiram as reduções do Tape e do rio Uruguai para sudoeste, as do Guairá; e a oeste, as do Itatim. Mas houve também expedições que percorreram terras de Minas Gerais; outras, cruzando os sertões goianos e matogrossenses, subiram os afluentes do Amazonas e atingiram o grande rio, enquanto outras se defrontavam, na bacia do São Francisco, com a marcha para o interior dos criadores de gado nordestinos. O território brasileiro definia seus contornos, ganhava coesão interna - e os bandeirantes, já famosos por conhecerem os perigos do sertão eram chamados pelas autoridades para combater inimigos distantes: os holandeses, os “índios bravos” do Nordeste açucareiro e os negros que se rebelavam contra o regime de escravidão.  

 

Os paulistas no Nordeste

Chegando ao Brasil, à frente de uma poderosa armada, em janeiro de 1639, o conde da Torre trazia a missão de expulsar os holandeses do Nordeste. Depois de passar pela Bahia, alcançou o Rio de Janeiro, onde pediu ao governador Salvador Correia de Sá e Benevides que reunisse reforços na capitania de São Vicente. O governador, por sua vez, transferiu a tarefa para D. Francisco Rendon de Quebedo, genro de Amador Bueno. Depois de muitos esforços, Quebedo conseguiu juntar apenas 22 infantes e 54 índios, quantidade um tanto ridícula para quem queria expulsar os holandeses do Brasil. Na verdade, os paulistas estavam mais interessados em caçar índios das reduções jesuíticas do que em combater os aguerridos inimigos no distante Nordeste. Diante disso, as autoridades resolveram conceder perdão a todos os “criminosos” que se apresentassem. Ora, o bandeirismo era formalmente considerado crime. Mas era também a principal atividade dos paulistas. Choveram então as adesões ao apelo de Quebedo. Apresentaram-se, entre outros, João Sutil de Oliveira, “alistado para o fim de seu pai, Francisco Sutil de Oliveira, obter o perdão das muitas bandeiras em que tomou parte’’, e Alberto de Oliveira, “filho de Rafael de Oliveira, o Velho, que fez todos os gastos do aviamento, para ser perdoado das entradas que fez ao sertão’. Mas o bandeirante mais famoso que resolveu participar da expedição foi Antônio Raposo Tavares. Reforçado, assim, pelos sertanistas, o corpo paulista juntou-se ao conde da Torre no Rio de Janeiro, em fins de 1639. Mas foi derrotado no mar, junto com roda a armada luso-espanhola, diante da costa paraibana, no ano seguinte. Os bandeirantes desembarcaram, então, no Rio Grande do Norte , retirando-se até a Bahia, sob as ordens de Raposo Tavares e Luís Barbalho. A seguir, Raposo Tavares, depois de atravessar o sertão, voltou a São Paulo para conseguir reforços, enquanto um grupo de sertanistas prosseguia na luta contra os holandeses. Segundo algumas notícias, uma parte da expedição fez uma viagem bem mais extensa: quando a frota se dispersou, no litoral paraibano, fugindo diante dos holandeses, alguns navios com bandeirantes continuaram navegando até chegar a Cartagena das Índias (na Colômbia).  


Organização das Bandeiras

São Paulo era uma povoação acanhada. O mato crescia por toda parte. Mas era para esse povoado que retornavam os bandeirantes cansados das aventuras, como Raposo Tavares. Na primeira década do século XVII, logo após o regresso de Nicolau Barreto com inúmeras “peças” (assim eram chamados os escravos, índios ou negros) capturadas, os paulistas lançaram-se ao sertão.

 

Em 1623, partiram tantas bandeiras que São Paulo tornou-se quase que uma povoação só de mulheres e velhos. Nesse ano, penetraram no sertão, entre outros, Henrique da Cunha Gago e Fernão Dias Leme (tio de Fernão Dias Pais), além de Sebastião e Manuel Preto, que voltavam, mais uma vez, a caçar índios. No ano seguinte, os bandeirantes protestavam, indignados, contra uma provisão do governador, que destinava à Coroa a quinta parte dos indígenas capturados. O apresamento havia-se tornado uma atividade econômica de vulto. Devia, protanto, pagar impostos, da mesma forma que a pesca da baleia e o comércio de pau-brasil.

 

Por essa época, as expedições de apresamento e as de prospecção apresentavam formas de organização bastante diferentes. As primeiras, estruturadas militarmente pro D. Francisco de Souza e, mais tarde, pelos mestres-de-campo Manuel Preto e Antônio Raposo Tavares, reuniam milhares de índios, liderados por algumas centenas de mamelucos (mestiços) e portugueses. Dividiam-se em companhias com estados-maiores, vanguardas e flanqueadores. O armamento básico era o arco e flecha, mas contavam também com armas de fogo. As bandeiras de prospecção eram bem menores: algumas dezenas de sertanistas que se esgueiravam pelas matas, procurando passar despercebidos às tribos guerreiras. Seu armamento era leve, para defesa contra eventuais ataques indígenas e de animais.

 

Entre os pontos comuns aos dois tipos de expedição estavam a ausência de animais de carga e o fato de evitarem vias fluviais. As regiões serem percorridas eram pedregosas ou cobertas pela mata, mais facilmente cruzadas por homens que estavam em marcha. Quanto aos rios, era junto a eles que estava localizada a maioria das tribos: o percurso por via fluvial teria anulado qualquer efeito de surpresa, essencial para o êxito do apresamento.  Só no século XVIII, quando foram descobertas as minas de Cuiabá, é que as monções começaram a seguir pelo rio Tietê - ou Anhembi, como era então denominado - rumo aos centros mineradores de Mato Grosso.

 

Paulistas à procura de ouro

Várias razões explicam a predominância do bandeirismo de prospecção sobre o de apresamento a partir de meados do século XVII. Depois que a Espanha decidiu armar as reduções, escravizar índios tornou-se uma empresa bem mais difícil. E menos lucrativa, pois, com a retomada de Angola pela Coroa portuguesa, em 1651, o tráfico de escravos africanos voltou a ser controlado por comerciantes lusobrasileiros, o que provocou a queda nos preços dos indígenas aprisionados. Por outro lado, a economia do açúcar brasileiro entrou em crise quando os holandeses, expulsos do Nordeste, começaram a controlar o comércio do produto proveniente das Antilhas. Finalmente, a escassez de metais preciosos agravara-se na Europa com o esgotamento das reservas da América espanhola, tomando urgente a necessidade de encontrar novas jazidas. Em busca de saída  financeira, a Coroa portuguesa passou a mandar cartas régias aos paulistas, prometendo prêmios e honrarias a quem descobrisse minas. Um pioneiro da nova era Antônio Castanho da Silva, já em 1618, havia se embrenhado com sua bandeira pelos sertões de Cuiabá. Sempre à procura de ouro, foi dar no Peru, onde morreu em 1622. Mas foi só a partir de 1660 que as entradas começaram a ter sucesso. Em 1668, Lourenço Castanho Taques, o Velho, partiu de São Paulo para o sertão dos cataguás, que percorreu por cerca de dois anos. Em 1674, deixou a vila de Piratininga a mais importante bandeira dessa fase - a de Femão Dias Pais, que abriu caminho até a região das Minas Gerais. Em 1675, partiu a bandeira de Manuel de Campos Bicudo. No ano seguinte, a de Bartolomeu Bueno da Silva, o Velho. A primeira seguiu para o norte do Mato Grosso, a segunda para Goiás. Encontraram-se em pleno sertão goiano. Nesse percurso teriam avistado uma serra em cujos penhascos a natureza desenhara formas parecidas com os símbolos da Paixão de Cristo. Chamaram-na serra dos Martírios. Anos depois, Antônio Pires de Campos e Bartolomeu Bueno, o Moço, filhos dos dois sertanistas, que ainda meninos haviam acompanhado os pais naquela ocasiâo, voltariam ao Brasil central em busca da serra lendária.

 

Em busca do ouro de Cuiabá

Quando as bandeiras começaram a declinar, a marcha para oeste passou a assumir outras formas. Utilizando o curso dos rios, as viagens tornaram-se mais regulares e com destino conhecido. A esse movimento, que se iniciou na segunda década do século XVrII, dá-se o nome de monções. O termo é aqui aplicado impropriamente. Em seu sentido original, as monções indicam o regime altemado de ventos, que determina as épocas propícias à navegação. No Brasil do século XVIII, porém, passou a se conhecer por monção a estação adequada para as viagens fluviais, o que nada tem a ver com ventos, mas sim com as cheias ou vazantes dos rios.

O movimento das monções teve início em 1718, quando Pascoal Moreira Cabral descobriu ouro nas barrancas do rio Coxipó-Mirim, próximo ao sítio onde hoje se ergue a cidade de Cuiabá. Outros sertanistas, que acorreram ao local, descobriram novas jazidas, tornando-se a região um vasto campo de mineração. Assim, as primeiras monções corresponderam à corrida do ouro que se iniciou rumo à região do rio Cuiabá. Atraídos pelo novo Eldorado, os habitantes de São Paulo largavam tudo o que possuíam seguindo viagem, por via fluvial, até Mato Grosso.  Aos poucos, essas viagens foram-se tomando regulares e mais organizadas. Já não se tratava apenas de levar novos mineradores, mas de abastecer os que lá se encontravam. O roteiro das monções variou no tempo, mas o Tietê era sempre o começo de todas as viagens. Por ele chegava-se ao rio Paraná, de onde era possível alcançar outros cursos d’água, como o rio Pardo. Após subir o rio Pardo e entrar por outras correntes secundárias, a monção enfrentava a parte mais difícil da viagem: era necessário passar para algum dos afluentes do Paraguai. Essa  travessia era feita por terra, pois as duas redes fluviais estão separadas por um divisor de águas, cujo ponto mais estreito tem duas léguas e meia (quinze quilômetros). Vencido esse obstáculo, era possível alcançar o Paraguai, subir o São Lourenço e, finalmente, o rio Cuiabá. Nos trechos encachoeirados dos vários rios por onde se passava, todos desembarcavam e a tripulação tinha que abandonar a água e fazer o caminho por terra, arrastando as canoas ou puxando-as com cordas. De São Paulo a Mato Grosso, a monção levava, no mínimo, cinco meses de viagem.

 

As canoas eram, em geral, inteiriças, feitas com um só tronco de árvore, medindo doze a treze metros de comprimento, por um metro e meio de diâmetro. As maiores chegavam a transportar até quatrocentas arrobas de carga (seis toneladas), além de 25 a 30 pessoas, entre as quais o piloto, o proeiro (que viajava na proa, à frente do barco) e seis remeiros. Com o crescimento do comércio entre São Paulo e as povoações de Mato Grosso, surgiu a necessidade de racionalizar as expedições. As viagens passaram então a ser feitas em grandes comboios, apenas uma vez por ano. Essas frotas de comércio chegaram a abranger até quatrocentas canoas, onde ia tudo o que necessitavam os habitantes de Cuiabá, Vila Bela e demais povoações que iam surgindo em decorrência do trabalho de mineração: desde o sal, destinado à cozinha dos ricos e ao batizado dos pobres, até a seda para os dias de festa.

 

As monções partiam do porto de Araritaguaba, atual cidade de Porto Feliz, às margens do rio Tietê, levando em média cinco meses até alcançar as minas de Cuiabá. Sabe-se que uma das maiores, a do governador de São Paulo, D. Rodrigo

César de Menezes, partiu de Porto Feliz com  mais de 300 canoas e cerca de 3.000 pessoas.

 

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Antiguidade do Porto de Araritaguaba (*)
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Porto Feliz em 1835
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